Assunto:
Vamos plantar soja safrinha?
Por
Felipe Takao
Data
quarta-feira, abril 09, 2014
(*) por Eng. Agr. José Fernando Jurca Grigolli.
A safra de soja já chegou ao fim e finalmente o plantio de
milho foi finalizado em Mato Grosso do Sul, apesar do grande volume de chuvas,
que atrasou bastante a atividade. Entretanto, a visão da famigerada soja
safrinha é corriqueira por onde passamos, talhões e talhões plantados com soja.
Junto com essa visão, muitos questionamentos sobre sua real capacidade de
prejudicar o sistema de cultivo estabelecido vêm à tona. Muito se fala sobre a
ferrugem e as pragas, mas qual é a real preocupação? Será que existe algum
motivo para tal preocupação?
Alguns pontos de reflexão se abrem com esses questionamentos
para uma discussão rápida do assunto:
- O que ocorre com a pressão de doenças e pragas quando
iniciamos um ciclo de sojasubsequente à outro ciclo de soja?;
- Qual a dinâmica populacional das pragas no campo com esse
sistema?;- O que ocorre com os produtos fitossanitários utilizados durante esse
cultivo?
- E se houver uma queda acentuada nos preços da soja, como
pagar a conta?
Após respondermos essas reflexões, fica mais evidente os
perigos da soja safrinha, cultivada em diversas regiões do Brasi e com
perspectivas de crescimento em função dos preços praticados.
Vamos iniciar com as doenças. Se pensarmos em ferrugem
asiática da soja, em mancha-alvo e em antracnose como o complexo de doenças
mais preocupantes da soja, veremos que tratamos de doenças policíclicas, ou
seja, seu desenvolvimento no campo é rápido na presença de hospedeiro (soja) e,
com isso, os danos causados são ainda maiores. A soja safrinha já emerge com
uma quantidade de inóculo (advinda da safra de soja) mais elevada, o que
dificulta o manejo das doenças. Assim, deveremos realizar até cinco aplicações
de fungicidas (isso mesmo, cinco aplicações de fungicidas) para conseguir
manejar essas doenças e obter bons níveis de produtividade. Essa realidade não
é observada na soja de safra, pois a quantidade de inóculo inicial é muito
baixa, o que atrasa a infecção das plantas pelos patógenos citados
anteriormente e culmina com a redução do número de aplicações de fungicidas.
Quanto às pragas, espera-se a ocorrência antecipada das que
têm grande potencial de dano, como lagarta militar (Spodoptera spp.), falsa-medideira
e a lagarta Helicoverpa (não vamos esquecer que existem outras pragas, que nem
tudo é Helicoverpa e que nem toda Helicoverpa é Helicoverpa armigera). Com o
cultivo de soja safrinha, a pressão de pragas será maior do que no cultivo de
safra (a quantidade de pragas no inicio do ciclo de cultivo é maior) e será
necessário aumentar o número de aplicações de inseticidas. Esse aumento será
observado para o controle de lagartas e de percevejos, que a cada ano que passa
se torna mais difícil o seu controle.
A estória de que a ferrugem poderá se tornar mais agressiva
na próxima safra é um mito. A ferrugem é um parasita obrigatório, ou seja, se
desenvolve na cultura da soja e morre quando não há sua presença (por isso
cultivos antecipados de soja apresentam menos problema com essa doença, pois na
realidade esse cultivo irá gerar inóculo para os cultivos mais tardios). Assim
que tiramos a soja do cenário, a quantidade de inóculo de ferrugem é reduzida,
prática essa já controlada há vários anos pelo vazio sanitário, obrigatório por
lei no Brasil. Mas então, qual é o problema?
O problema é que a intensificação do uso de fungicidas e
inseticidas causará redução de sua eficiência em um intervalo de tempo muito
curto (lembre-se que iremos no melhor dos cenários dobrar o número de
aplicações, o que irá selecionar cada vez mais indivíduos resistentes à esses
produtos utilizados). Com essa redução da eficiência, a dificuldade no controle
de pragas e doenças ficará mais evidente e deve potencializar os danos por elas
causados. Certamente o pensamento de que as empresas irão desenvolver outros
produtos nos vem à mente. Mas até quando as empresas irão resolver esses
problemas? Quanto que os produtores terão que desembolsar por conta dessa falta
de preocupação?
Essas duas perguntas incomodam bastante a comunidade
científica, sem pensar nas duas próximas perguntas:
- Até quando o preço da soja estará em alta?;
Sem dúvida, do ponto de vista fitossanitário, o sistema soja
– soja safrinha é arriscado, bem como do ponto de vista econômico. Isso sem
contar a retirada do milho consorciado do sistema, o que incrementa a palha no
solo, possibilita o plantio direto e eleva a produtividade da sojaano a ano.
Com a retirada do aporte de matéria orgânica no sistema, colocamos em risco todo
o trabalho de décadas para construir condições adequadas para o desenvolvimento
da soja e elevação dos seus níveis de produtividade (redução dos níveis de
matéria orgânica no solo).
Diante desses poucos questionamentos, rapidamente levantados
quando pensamos neste assunto, ficam no mínimo evidentes os riscos desse
cultivo e do sistema soja – soja safrinha. Logicamente que os problemas
abordados são bastante simplistas e que a discussão é muito mais profunda,
digna de diversos livros e muitas horas de estudo. Entretanto, será que vamos
desconsiderar o que aprendemos a duras penas e plantar soja safrinha? Passar
por cima de todo o esforço para o estabelecimento de um sistema de cultivo
consagrado, viável economicamente e que acarreta em pouco impacto ambiental e
apostar na soja safrinha? Por isso, encerro o meu texto com a pergunta inicial:
vamos plantar soja?
* José Fernando Jurca Grigolli é engenheiro agrônomo formado
pela Universidade Federal de Viçosa (UFV, 2009), mestre em agronomia - produção
vegetal - pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP,
2012) o doutor em andamento em agronomia (entomologia agrícola) também pela
UNESP. NaFundação MS, ocupa o cargo de pesquisador de fitossanidade.
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